Missões Transculturais

“Livra os que estão sendo levados para a morte e salva ao que cambaleiam, indo para serem mortos”  Pv 24.11

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A dimensão transcultural do Evangelho tem a ver com a comunicação do Evangelho entre outros povos atravessando barreiras sócio-culturais. Por cultura referimo-nos a toda a vivência de um povo em um determinado espaço geográfico. Esta vivência inclui as crenças religiosas, as idéias, os valores e percepções acerca do que é bom e mau; a forma como um povo organiza sua vida familiar, comunitária, social, etc., como também sua forma de trabalhar e de ganhar a vida. Isto é, quando falamos acerca da cultura de um povo estamos nos referindo a toda uma forma de ser e agir, incluindo os costumes, expressões materiais, espirituais e o idioma desse povo.A Bíblia afirma que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-28). Isto implica em que o homem e a mulher foram criados com a capacidade para criar e produzir cultura. O ser humano possui faculdades mentais, morais e religiosas, que lhe permitem relacionar-se não somente com Seu Criador, seu próximo e seu meio ambiente, mas também criar e elaborar elementos culturais. Estas obras culturais podem ser bem concretas, como uma mesa, um instrumento musical ou uma ferramenta, assim como coisas mais abstratas, como um discurso sobre a liberdade, o amor ou uma palestra sobre “A Dimensão Transcultural do Evangelho”. Referindo-se à passagem de Gênesis 1.26-28, Calvin Seerveed nos recorda: A intenção deste mandato é dignificar o homem como co-participante que goza da confiança do Senhor, recordar-lhe que está encarregado da totalidade do cosmos. Tal mandato tem, na realidade, um alcance tão global que merece o título de “mandato cultural”. “Cultivem o jardim do Éden, e muito mais” significa que, inclusive antes do pecado, Deus esperava que esta criação elaborada é o mesmo que “temporal”, estruturada por Deus para permitir um desenvolvimento progressivo e multifacético) estivesse sob o cuidado do homem e fosse por este adornada, moldada, e culturizada. Desde o princípio a criação foi feita para ser expandida, “descoberta” e atentamente moldada, edificada, pelo homem. Com base nisso, Adão pôs-se a trabalhar imediatamente e começou a dar nomes aos animais. Além disso, “a cultura não é portanto, algo que o homem possa alcançar por seu próprio esforço. Trata-se antes de um canal de adoração próprio da natureza humana e de uma atividade com a qual o homem se encontra inexplicavelmente comprometido, presidindo (como enviado de Deus) o resto da formação e o desenvolvimento da criação. Esta é uma tarefa que envolve tanto o humilde arrancador de ervas daninhas no campo de cebolas, como um Bernstein elaborando suas composições musicais. Apesar da queda do homem, a graça de Deus permite que haja manifestação de coisas boas e positivas na cultura dos homens em geral. Por isso todas as culturas da terra possuem coisas que podemos considerar positivas, boas para o ser humano. Por exemplo, os avanços tecnológicos e agrícolas dos antigos peruanos andinos. Os trabalhos de engenharia de canais de irrigação e caminhos, seus valores de cooperação comunitária, etc., evidenciam a criatividade dos antepassados. Porém a Bíblia também afirma que o pecado de Adão e Eva afetou sua relação com Deus, com os homens e com seu meio ambiente. Isto e, o pecado afetou toda a vivência do homem, toda a sua cultura. Há, também, coisas negativas, pecaminosas e demoníacas em todos os povos que não podemos ignorar. O homem e sua cultura necessitam da graça redentora de Deus em Jesus Cristo. Um dos desafios que nós, cristãos, temos em nossas diferentes culturas é o buscar a transformação do homem pecador e também a transformação de nossas sociedades, especialmente de seus aspectos pecaminosos. O negativo e demoníaco deve ser melhorado e dedicado à glória de Deus e ao bem- estar de nosso povo, especialmente dos mais necessitados. Contudo, sabemos que ser bom ou produzir coisas boas não salva o homem. Todos os povos são objeto do amor de Deus; portanto, Deus deu a conhecer sua mensagem de salvação a todos os povos através da cultura judaica. Deus chamou a Abraão e lhe disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem, em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gn 12.1-3). Deus se aproximou de Abraão, usou e transformou sua bagagem cultural, seu idioma, costumes e práticas para formar uma nova nação que seria bênção para todas as nações. No pacto abraâmico estava a preocupação de Deus em revelar-se e salvar toda a humanidade. Deus escolheu o povo judeu como meio de sua revelação, não para que desse testemunho de Deus e de seus propósitos salvíficos a todas as nações O Evangelho do reino foi dado a todo o mundo e não é monopólio de um só povo ou cultura. O povo judeu, através de sua história, teve um pouco de dificuldade para chegar a compreender esta verdade. Vejamos, por exemplo, a história de Jonas, como diante da ordem de ir a Nínive anunciar o juízo de Deus, ele se recusou e intencionou escapar da presença de Deus. Jonas e muitos judeus como ele tinham desprezo e preconceitos contra os ninivitas, uma vez que os consideravam como pessoas pagãs e contaminadas, com as quais eles não deveriam manter contato. Nínive era uma grande cidade, cujo pecado havia chegado ao limite da paciência de Deus (Jonas 1.1-3). Deus queria dar aos ninivitas uma oportunidade de se arrependerem, antes de desatar seu juízo contra eles, Jonas não queria anunciar a advertência de Deus, pois temia o arrependimento dos ninivitas. Não queria compartilhar a misericórdia de Deus com os demais, pelo contrário, queria monopoliza-la toda para si e seu povo judeu. Deus, porém, não pensava assim. Seu amor e misericórdia estendiam-se a todas as nações; escolheu precisamente a Abraão e o povo judeu para que fossem bênção para todas as nações da terra. No tempo do Novo Testamento, a igreja cristã, que estava começando, era composta principalmente de judeus cristãos, os quais a princípio tampouco compreenderam o que significava o fato de o Evangelho ter sido dado a todas as nações da terra. Os judeus cristãos do primeiro século confundiram o ser cristão com seus ritos, comidas e costumes; isto é, pensavam que o gentio, para ser cristão, deveria tornar-se judeu. À guisa de ilustração, quero fazer referencia aos incidentes de Atos 10.11 e 15, onde são tratados especificamente estes temas da cristianização dos gentios. Deus teve de revelar-se a Pedro através de uma visão, onde pede que se levante, mate e coma animais que, embora imundos para Pedro e os judeus, Deus havia limpado e que estavam, portanto, patos para serem comidos. Pedro, ao encontrar-se com Cornélio e os outros gentios, teve de admitir e dizer: “...Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se de alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo...Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos”. (Atos 10.28; 10.34-36). Desta e de outras maneiras Deus preparou o caminho para que os cristãos judeus pudessem dar-se conta de que Deus ama os gentios e quer que estes recebam a graça de seu amor e expressem a fé dentro de seu próprio marco cultural. Esta compreensão da universalidade do Evangelho, porém, não foi fácil. Paulo lhe da um tratamento especial em sua carta aos gálatas, e o concílio de Jerusalém (em Atos 15) chega a certas conclusões que deitam por terra as intenções dos judaizantes de monopolizar a fé, de condiciona-la a seus gostos e juízos culturais. Os cristãos do século XX não estão isentos de cair na tentação de monopolizar a fé segundo os critérios de nossas culturas e ideologias. Por isso devemos estar sempre alerta para evitarmos cair na tentação de conduzir o Evangelho de acordo com nossas práticas, costumes e estilos de vida particulares ou de nossos contextos sócio-culturais. E o que é pior, de pretender impo-las sobre a face da terra como única maneira de expressar e de difundir a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Há alguns anos o famoso evangelista Billy Graham, fazendo uma reflexão honesta sobre sua peregrinação como evangelista, admitiu que uma das constantes tentações de sua carreira havia sido pensar que o cristianismo era sinônimo de norte-americanismo ou de algum programa político (Los Angeles Times, 17/7/74). Os cristãos do Terceiro Mundo tampouco estão imunes à possibilidade de cair nas tentações mencionadas. Aqui devemos perguntar-nos: o que significa comunicar o evangelho entre os quéchuas, os aquarunas, os tiros, os campas ou os machiguengas? Significa forçá-los a expressar a fé segundo os modelos de adoração e evangelização mestiço-crioula ou estrangeira? Significa integrá-los à vida nacional ou denominacional, sem respeitar ou pelo menos levar em conta sua idiossincrasia como povo? Espero que não! Aqui as reflexões do apóstolo Paulo em I Coríntios 9.19-23 nos ajudam de maneira bem específica a encarnar o modelo de Jesus na evangelização

1. Paulo, sendo livre de todos, fez-se servo de todos.

2. Para com os judeus, isto é, os que estavam sujeitos à lei, fez-se judeu. Embora Paulo não tivesse sem lei, sujeitou-se à lei.

3. Aos que estavam sem lei, fez-se como sem lei, exceto a Lei de Deus.

4. Com os fracos, fez-se fraco. E finalmente, em síntese:

5. Fez-se tudo, para co todos, no propósito de ganha-los para Cristo com a ordem de Jesus.

Qual é a aplicação concreta desta reflexão à nossa própria tarefa evangelizadora? Pois, isto quer dizer: se formos chamados a ser testemunhas de Jesus entre os shipibos, teremos de nos tornar como shipibos. Temos, em primeiro lugar, de desenvolver em nosso coração o amor divino para com eles e então estabelecer passos concretos, como a aprendizagem de seu idioma, conhecer seus costumes e cultura, despojando-nos de qualquer preconceito: aprender a cantar com eles, de tal maneira que demonstremos de forma viva que Deus os ama e nós também. Isto significará também que deixaremos que eles expressem fé em sua própria maneira shipiba, por mais estranha que esta nos pareça, já que reconhecemos que Deus se alegra na expressão genuína da fé de todos os seus filhos na terra. Ser testemunha do Senhor em países do Terceiro Mundo, onde os setores populares são a maioria, significa que é necessário desenvolver uma sensibilidade especial para com as necessidades espirituais, físicas e materiais dos pobres. Significa que devemos preocupar-nos não somente com os “não alcançados”, usando uma linguagem missiológica, mas também com as necessidades não-alcançadas dos não-alcançados. Isto quer dizer que o Evangelho não deve atomizar-se nem dicotomizar-se entre sua expressão social e espiritual, mas que, pelo contrário, devemos buscar a comunicação integral do Evangelho em todo o mundo.

O Evangelho do Reino foi dado para ser propagado até os confins da terra (Atos 1.8). O pacto abraâmico encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. O evangelho de Cristo foi dado á sua igreja para que esta sirva de benção. Portanto, Jesus recorda a seus discípulos, na Grande Comissão, que devem ir e fazer discípulos de todas as nações ( Mateus 28.18-20). A preocupação pela evangelização de todos os povos da terra não deve ser preocupação somente da igreja na Europa, estados Unidos ou Austrália. Esta deve ser a preocupação de todo o povo de Deus na face da terra. Damos graças a Deus, nos países do Terceiro Mundo, de compartilhar e realizar a tarefa missionária. Sabemos de irmãos brasileiros, coreanos, chineses e peruanos que estão fora de seus países de origem, muitos enviados por suas congregações, para cumprir a ordem de “ir e fazer discípulos de todas as nações”. Não obstante, este entusiasmo não nos deve fazer perder de vista que setores da igreja do Senhor, com todas as suas limitações, vêm procurando através dos séculos levar adiante a tarefa de comunicar o Evangelho transculturalmente. Esta preocupação com a evangelização mundial deve começar em casa. Como podemos nos preocupar com a evangelização dos indígenas da África ou dos Estados Unidos, se não nos importamos com a situação dos indígenas de nossas próprias terras? Como podemos nos preocupar-nos com a evangelização das culturas da África, Ásia, Europa ou Estados Unidos, sem preocupar-nos com as muitas culturas em nosso país? Mencionamos estes exemplos porque às vezes se tem criticado com muita facilidade as igrejas por sua suposta falta de visão missionária transcultural. Este não é sempre o caso. Uma razão fundamental do ser igreja é ser missionária, e isto se cumpre sem muito barulho ou alarde. A dimensão transcultural do evangelho deve começar em casa, porém não estancar-se nem se deter aí.

O Evangelho deve ser pregado em todo o seu conteúdo e em todas as suas implicações para a vida total do homem e dos povos da terra. A evangelização integral dos povos e nações da terra recebe sua ordem concreta e específica de Jesus, expressa nos textos da “Grande Comissão” (Mateus 28.16-20). Neste texto, como vimos, notamos que Jesus nos envia em seu poder e autoridade para que vamos a todas as nações e façamos discípulos (seguidores de Cristo), batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Porém, aqui não termina tudo, mas continua e exorta: “...ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado...”. Nós geralmente nos esquecemos desta última parte. Colocamos todo o esforço e ênfase na “salvação de almas” , porém devemos ter sempre presente que a Grande Comissão também inclui ensinar todas as coisas que Jesus exortou a ensinar: que se guardem todas as coisas que nos ordenou, através de sua vida, de seus discípulos e de sua Palavra. Proclamemos o Evangelho, batizemos e façamos discípulos, porém ensinemos o povo de Deus a também viver uma vida santa, pura, que demonstra preocupação com o estabelecimento de justiça em nossa sociedade, com uma relação mais justa entre os homens e com a situação dos que sofrem perseguição, fome, opressão social e espiritual. Apresentemos todo o Evangelho de Deus a todo o contexto humano. O contexto humano inclui espírito, alma, carne e osso. Nosso contexto andino inclui pobreza, corrupção, violência, injustiça, imoralidade, falta de trabalho, prostituição, drogas, subemprego, roubo, violações dos direitos humanos e constitucionais. E inclui também alegria, valores autóctones, religiosidade, idiomas diversos, culturas diversas, música, festas. O evangelho de Cristo deve ser pregado neste contexto para redimir, salvar, transformar nossos povos, nossa gente e suas culturas. Isto implica na negação do relegar o Evangelho somente a uma de suas várias dimensões, seja esta a social, política ou espiritual. Tampouco devemos pregar o Evangelho somente em sua dimensão de graça, sem fazer referência a sua dimensão de juízo. O Evangelho deve ser pregado aos pobres, aos ricos, aos setores médios, a nossas autoridades – a todos os setores de nossa sociedade. Devemos evitar a tentação de limitar o Evangelho a nossos gostos, juízos e versículos favoritos. Façamos o esforço de anunciar a mensagem, fazendo discípulos e ensinando tudo o que Jesus nos ensinou. Não caiamos na tentação de pregar uma mensagem parcializada e barata, à moda das liquidações e ofertas do mercado, sem anunciar a renúncia e o sacrifício que implica o ser cristão. Não façamos do Evangelho uma mercadoria barata, que Jesus expulsará com açoites dos templos prostituídos de nossas vidas. Não esqueçamos de ensinar todo o conselho de Deus a todo o povo de Deus, para que este seja uma fiel testemunha do Evangelho ali onde o Senhor o tem enviado.

O evento histórico da vinda de Cristo, sua encarnação, nos apresenta o desafio e modelo, por excelência, da comunicação transcultural do Evangelho. Emanuel, “Deus conosco”, significa que Jesus se despojou de seus direitos divinos para tornar-se homem, identificando-se conosco, mostrando-nos seu amor e ainda morrendo na cruz. Jesus se encarnou e assumiu a humanidade de um homem da cultura judaica, incluindo seu idioma e costumes. Em Filipenses 2.5-11 Paulo nos exorta a seguirmos o modelo de Jesus. Quem comunica o Evangelho, seja entre outras culturas ou em sua própria cultura, deve esforçar-se para refletir atitude e a práxis de Jesus. Deve estar disposta a renunciar a seu etnocentrismo cultural, não somente porque este pode constituir-se em obstáculo de comunicação, mas também como um testemunho vivo do amor de Deus. Renunciar aos direitos culturais próprios não é somente estratégia de comunicação, mas é testemunho vivo do amor de Deus. Estamos conscientes de que isto não é fácil, que não podemos fazê-lo por nosso próprio esforço: necessitamos da graça e do poder de Deus. Aqui queremos inserir uma palavra de exortação e autocrítica construtiva como povo cristão. Assim como nossa história missionária, tanto estrangeira como nacional, nos mostra muitas páginas de entrega, sacrifício e renúncia por causa do Evangelho, assim também há algumas páginas que evidenciam arrogância cultural, paternalismo e dominação por parte de alguns comunicadores do Evangelho entre outras culturas. Por exemplo:

1. Insistir em uma hinologia estrangeira, sem dar espaço a uma expressão musical autóctone da fé, é cair em uma arrogância liturgia que não reconhece a multiforme graça de Deus nos povos da terra. Agrada a Deus que seu povo o louvo livre e espontaneamente, utilizando suas próprias formas instrumentais e musicais, santificando-as para a glória de Deus, a edificação dos crentes e a evangelização contextualizada dos povos.

2. Assumir, por exemplo, que há somente uma forma de evangelizar ou de fazer missão pode dar a impressão de certo orgulho ou etnocentrismo metodológico, que estaria cego à multiforme graça de Deus. Para além das formas e slogans que possamos desenhar, devemos buscar a fidelidade a Deus, abertos à orientação e poder do Espírito Santo, sob a disciplina das Escrituras. Devemos buscar as maneiras mais apreciadas, caso elas não se encaixem ou não correspondam a integridade do Evangelho nas diferentes culturas, e situações onde o Senhor nos chamou a ser suas testemunhas.

3. Insistir em discussões e debates que não sejam pertinentes à igreja local ou nacional ou à situação continental e que, pelo contrário, equivalem a preocupações específicas do fazer teológico e missionário de outros povos e, permitam a redundância, querer ser servido antes de servir. Insistir, por exemplo, em filiar-se exclusivamente a este ou aquele grupo que pretende representar a igreja de Cristo, poderia ser optar pela desunião e agudização dos conflitos entre os filhos de Deus, parar os esforços de unidade da igreja. Por isso, sob as circunstâncias atuais da vida da igreja, é necessária uma posição de abertura e de diálogo com todos estes setores, para que possamos discernir a voz de Deus e aprender mutuamente, sem que isto signifique “compromisso formal” com este ou aquele. Naturalmente, respeitamos a livre determinação de certos setores do povo de Deus, em suas decisões a esse respeito, orando para que tais decisões não nos dividam mais, mas que, pelo contrário, contribuam para a unidade dos filhos de Deus, para que “o mundo conheça que tu me enviaste” (João 17.23). Em síntese, insistir na importação ou exportação cega de modelos de evangelização, missão e liturgia, sem considerar sua contextualização sócio-cultural, é incorrer na insensível e irrefletida aplicação de expressões da fé que, embora belas e efetivas em seu contexto original, podem se constituir em limitações á criação de modelos de evangelização e missão autóctones e autênticos do povo de Deus em um determinado lugar. Estas atitudes, em vez de nos aproximar do modelo da encarnação, aproxima-nos do modelo imperialista, de dominação e colonização. Se nosso Senhor nos salvou da escravidão do pecado, chamou-nos também a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Esta liberdade gloriosa possui suas expressões concretas na liberdade de expressar nossa adoração, evangelização, edificação e teologização de uma maneira que esteja de acordo com a forma de ser e pensar dos diversos povos redimidos por Jesus. O Senhor nos chamou a viver vida plena em Cristo Jesus. Isto só é possível se permite que os filhos de Deus vivam e expressem sua fé dentro de seu marco idiomático e cultural. Somente assim, o Evangelho poderá verdadeiramente ser o poder e a potência de Deus que transforma os homens e sua cultura pecadora em homens e cultura transformados, que reflitam cada dia mais a imagem e semelhança de seu Criador, dando testemunho eficaz dele. Somente assim poderemos começar a cumprir o imperativo da comunicação transcultural do Evangelho até os confins da terra, já que temos promessa e esperança a partir da visão de João, de que um dia veremos “uma grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: “Ao nosso Deus que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação”(Apocalipse 7.9-10).


BIBLIOGRAFIA: Paredes, Tito. “El Protestantismo em el Equador, Peru y Bolívia”. Tese de doutorado, Lima, Peru. Certeza n°7 “Renacimiento: Organo Informativo de la Iglesia Evangélica Peruana”, Nov. 1921:121, Lima, Peru. PAREDES, Ruben Tito “ A Dimensão Transcultural do Evangelho”, pág. 229 à 244. “A Serviço do Reino, Um Compêndio Sobre a Missão Integral da Igreja”, Editor STEUERNAGEL, Valdir, Editora Missão Mundial, Belo Horizonte, 1992, 312 páginas.

 

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